A verdade é que eu me ocupei tanto com os improvisos que o dia desembrulhou que durante as horas seguintes, mesmo já em casa, esqueci do botão de flor e da vontade de registrar o seu recado. Só lembrei dele, muito surpresa, quando lá pelas tantas da noite fui até a área buscar uma peça de roupa no varal e fui recebida por uma linda flor lilás toda desabrochada, toda dita, aquela que há poucas horas era poema ainda guardado. O tempo do botão havia passado, sem que passasse pela minha cabeça que pudesse passar tão rápido. Eu poderia fotografar outros botões, tantos quantos quisesse, centenas deles, mas aquele, exatamente aquele, era irrecuperável.
Sabemos que aquilo que vive tem seu tempo e, quer queira, quer não, é ininterruptamente tocado pela mudança. Sabemos que ela, essa inventiva e imprevisível desenhista, modifica as feições de tudo a cada segundo com mãos hábeis e movimentos muitas vezes imperceptíveis. Sabemos, mas costumamos agir como se ignorássemos, talvez no afã de ignorarmos que também a nossa vida dança de acordo com a música da irrevogável lei da impermanência. Por mais que possa ser difícil admitir, não temos o mínimo controle com relação ao tempo de nada, inclusive do nosso. Saber disso pode ser apenas assustador. Saber disso pode, de variados jeitos, nos fazer sofrer e amarrar os nossos passos. Mas a clara consciência disso também pode abrir nossos caminhos. Também pode fazer uma diferença incrível. Também pode ser uma perspectiva que nos motive a viver a oportunidade de cada instante com mais atenção, responsabilidade, afeto, liberdade, inteireza.
Vamos combinar que adiar fotos de botões de flor e perder o instante deles não constitui problema. Não nos tira o sono. Não macula a nossa paz. Não bagunça a nossa luz. Não faz o nosso amor engasgar. Não faz nenhuma culpa efervescer. Mas não podemos dizer o mesmo com relação à ternura adiada. Ao abraço adiado. Ao prazer adiado. À verdade adiada. À liberdade adiada. Ao perdão adiado, solicitado ou concedível. À expressão adiada da nossa sincera gratidão. Ao adiamento do cuidado de facilitar a própria vida e também a alheia que, às vezes, tantas vezes, pode ser facilitada com um ínfimo gesto nosso, umas poucas palavras que revelem o nosso afeto com transparência. Um sorriso daqueles bons. Um olhar generoso com o coração da gente todinho nu.
O instante de cada uma dessas bênçãos pode ser também irrecuperável como aconteceu com a oportunidade da foto daquele tal botão de flor. O melhor presente que podemos dar para a nossa vida e para outras, a cada respiro, é estarmos plenamente presentes. Sinceramente presentes. Amorosamente presentes. É sermos presentes para nós mesmos e uns para os outros com o coração. Adiamento é sempre dúvida. Às vezes, dívida.






