segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sem adiamento

Patricia fotografada num momento de alegria inadiável

Ana Jácomo

Foi de manhã, quando eu cuidava das plantas, que vi pela primeira vez a flor ainda guardada num lindo botão lilás. Disse tanto ao meu coração naquele instante, achei tão sincrônico dar de cara com ele nas primeiras horas do ano, que pensei em buscar a câmera para fotografá-lo. Não demoraria nada, coisa de dez minutos, menos até, mas, diante do convite do céu ensolarado que me chamava lá pra fora, resolvi sair logo para não desperdiçar azul. Não desisti da intenção, só um breve adiamento, mais tarde haveria tempo de sobra para a foto planejada.

A verdade é que eu me ocupei tanto com os improvisos que o dia desembrulhou que durante as horas seguintes, mesmo já em casa, esqueci do botão de flor e da vontade de registrar o seu recado. Só lembrei dele, muito surpresa, quando lá pelas tantas da noite fui até a área buscar uma peça de roupa no varal e fui recebida por uma linda flor lilás toda desabrochada, toda dita, aquela que há poucas horas era poema ainda guardado. O tempo do botão havia passado, sem que passasse pela minha cabeça que pudesse passar tão rápido. Eu poderia fotografar outros botões, tantos quantos quisesse, centenas deles, mas aquele, exatamente aquele, era irrecuperável.

Sabemos que aquilo que vive tem seu tempo e, quer queira, quer não, é ininterruptamente tocado pela mudança. Sabemos que ela, essa inventiva e imprevisível desenhista, modifica as feições de tudo a cada segundo com mãos hábeis e movimentos muitas vezes imperceptíveis. Sabemos, mas costumamos agir como se ignorássemos, talvez no afã de ignorarmos que também a nossa vida dança de acordo com a música da irrevogável lei da impermanência. Por mais que possa ser difícil admitir, não temos o mínimo controle com relação ao tempo de nada, inclusive do nosso. Saber disso pode ser apenas assustador. Saber disso pode, de variados jeitos, nos fazer sofrer e amarrar os nossos passos. Mas a clara consciência disso também pode abrir nossos caminhos. Também pode fazer uma diferença incrível. Também pode ser uma perspectiva que nos motive a viver a oportunidade de cada instante com mais atenção, responsabilidade, afeto, liberdade, inteireza.

Vamos combinar que adiar fotos de botões de flor e perder o instante deles não constitui problema. Não nos tira o sono. Não macula a nossa paz. Não bagunça a nossa luz. Não faz o nosso amor engasgar. Não faz nenhuma culpa efervescer. Mas não podemos dizer o mesmo com relação à ternura adiada. Ao abraço adiado. Ao prazer adiado. À verdade adiada. À liberdade adiada. Ao perdão adiado, solicitado ou concedível. À expressão adiada da nossa sincera gratidão. Ao adiamento do cuidado de facilitar a própria vida e também a alheia que, às vezes, tantas vezes, pode ser facilitada com um ínfimo gesto nosso, umas poucas palavras que revelem o nosso afeto com transparência. Um sorriso daqueles bons. Um olhar generoso com o coração da gente todinho nu.

O instante de cada uma dessas bênçãos pode ser também irrecuperável como aconteceu com a oportunidade da foto daquele tal botão de flor. O melhor presente que podemos dar para a nossa vida e para outras, a cada respiro, é estarmos plenamente presentes. Sinceramente presentes. Amorosamente presentes. É sermos presentes para nós mesmos e uns para os outros com o coração. Adiamento é sempre dúvida. Às vezes, dívida.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Perseverança

Foto de Felipe Lombardi

Ana Jácomo

Jogo a minha rede no mar da vida e às vezes, quando a recolho, descubro que ela retorna vazia. Não há como não me entristecer e não há como desistir. Deixo a lágrima correr, vinda das ondas que me renovam, por dentro, em silêncio: dor que não verte, envenena. O coração respingado, arrumo, como posso, os meus sentimentos. Passo a limpo os meus sonhos. Ajeito, da melhor forma que sei, a força que me move. Guardo a minha rede e deixo o dia dormir.

Com toda a tristeza pelas redes que voltam vazias, sou corajosa o bastante pra não me acostumar com essa ideia. Se gente não fosse feita pra ser feliz, Deus não teria caprichado tanto nos detalhes. Perseverança não é somente acreditar na própria rede. Perseverança é não deixar de crer na capacidade de renovação das águas.

Hoje, o dia pode não ter sido bom, mas amanhã será outro mar. E eu estarei lá na beira da praia de novo.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Perenidade

Foto de Cidinha Madeiro

Ana Jácomo

Mesmo quando as vidas aparentam se afastar, o sentimento da gente pode ignorar a palavra despedida, tantas vezes apenas um faz-de-conta de tentativa de ida que, apesar de anunciar, não sabe mais como ir embora.

Quando o encontro é bom e tem lume não tem porta de saída: é pra sempre, de um jeito ou de outros, no coração.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Para o amigo novo

Foto de Regina Bentes

Ana Jácomo

Recentemente, a vida, tecelã de ternuras que é, preparou para mim uma das suas melhores surpresas: um amigo novo. Embora ela já tivesse me presenteado outras vezes da mesma maneira, recebi o presente com ares de primeira vez. Era mesmo, de certa forma. O encontro de duas pessoas é sempre inédito, único, não há outro idêntico. Cada afeição compartilhada tem uma cara que é só dela. Uma dinâmica que é só dela. Uma atmosfera toda peculiar. Uma música. Um jeito próprio de rir.

E o amigo novo chega na vida da gente e fica tão à vontade que tem hora que parece até amigo antigo, essa história do tempo do coração tantas vezes não ter nada a ver com o do calendário. É como se os vínculos de afeto já existissem no vasto território da alma, antes de acontecerem, de fato. A cada encontro com um novo amigo, eu me surpreendo outra vez: como não o conhecia se quando olho para ele é como se sempre estivesse aqui? Como ele ignorava a minha existência se, quando me olha sinto que sabe tanto sobre mim sem que eu tenha lhe contado?

Ao encontrar o amigo novo, senti o viço que se esparrama na alma toda vez que um afeto floresce, as folhas muito verdes, os galhos carregados de brotos de amor. Senti vontade de lhe mostrar os meus brinquedos e de conhecer os dele. Senti o entusiasmo de falar e de ouvir, mas também o descanso que há em não precisarmos de palavra alguma para nos compreendermos. Só a afinidade legítima é capaz do silêncio sem embaraço. Só ela permite uma outra maneira de fala. Um idioma que apenas o coração domina. Uma comunicação que acontece numa frequência diferente de toda lógica.

É no olhar, sobretudo, que a amizade se confirma. É no jeito de olhar que nos reconhecemos no primeiro momento, nós, amigos recentes de longas datas. Isso porque amigo tem esse olhar bom: ele nos olha como se realmente quisesse nos ver, sem nenhum outro interesse que não seja a oportunidade boa e rara de partilhar amizade. Ele nos vê e permanece ao nosso lado, esse conforto que palavra alguma é capaz de traduzir. Esse detalhe grandioso que faz toda a mágica acontecer, porque amar é também a arte de cuidar com os olhos.

Amigo novo é primavera reinaugurada, não importa qual seja a nossa estação. A sua chegada nos faz lembrar outra vez que, por mais que o tempo passe, o amor não perde essa antiga mania de continuar a florir.

Parabéns pra Cidinha e Irina!

Foto de Cidinha Madeiro

Nossa querida Cidinha Madeiro, que tanto nos encanta com as fotos que compartilha com a gente aqui no blog, recebeu na última sexta-feira, pela quinta vez consecutiva, o PRÊMIO ESPIA 2009 na categoria de "Fotógrafo Amador".

A amiga Irina Costa, cujo belo trabalho já comentei, dividiu com Wilma Araújo o prêmio da categoria "Cantora".

Já em seu 5º ano, o Prêmio criado pelo Blog do Carlito Lima tem como objetivo homenagear pessoas que contribuem para a cultura alagoana em suas diversas áreas de expressão.

Fica registrada mais uma vez a minha admiração pela poesia que emana do coração das duas. Cidinha diz com o olhar. Irina, com a música. Elas não engasgam suas flores.