sábado, 29 de setembro de 2007

Sobre o abraço


Ana Jácomo

O pai pega a menina no colo e os dois se abraçam. Observo, sentada próxima à mesa onde estão. Coisa bem bolada essa dos braços se encaixarem. Uma possibilidade tão perfeita que parece que já foram imaginados também com esse propósito. Mas o melhor do abraço não é a idéia dos braços facilitarem o encontro dos corpos. O melhor do abraço é a sutileza dele. A mística dele. A poesia. O segredo de literalmente aproximar um coração do outro para conversarem no silêncio que dá descanso à palavra. O silêncio onde tudo é dito sem que nenhuma letra precise se juntar à outra. O melhor do abraço é o charme de fazer com que a eternidade caiba em segundos. A mágica de possibilitar que duas pessoas visitem o céu no mesmo instante.

A menina e o pai se abraçam. Nenhum dos dois percebe que o meu olhar filma a cena. É bom sinal que não percebam, porque no abraço bem fruído as duas vidas se ocupam de contemplar somente a paisagem que compartilham. Os olhos se tornam surdos para qualquer registro que esteja fora do ambiente construído. Talvez seja por isso que costumamos fechar os olhos quando abraçamos: para abri-los para dentro. Quando inclui o sentimento, o abraço é um portal que dá acesso às regiões mais arborizadas do coração da gente. Lá onde cantam passarinhos. Lá onde voam borboletas. Lá onde se respira grande sem ter a alma contraída. Lá onde experimentamos o amor ensolarado, por mais nuvens encharcadas de medo que também existam em nós.

A menina abraça o pai e repousa o rosto em seu ombro. Eu reparo a delicadeza com que ela o faz. Nada nela parece desejar retê-lo. Nada nela parece querer que aquele encontro dure mais do que o tempo que puder durar. Ela parece saber que o abraço não precisa ser demorado para ser longo. Se plenamente sentido, o seu efeito é duradouro. A energia que produz é capaz de circular por tempo indefinido nas vidas que o experimentam. E, depois, pode ser acionada a qualquer momento no lugar da memória onde são guardadas as belezas que não perdem o frescor.

A menina adormece abraçada ao pai. Ele se movimenta vagarosamente de um lado para o outro, sob o ritmo de uma música que somente ele ouve e que ela deve sentir em algum lugar do seu sonho. Ainda atenta ao espetáculo amoroso que assisto sem que ninguém perceba, curto a felicidade de não ter o coração curtido. De poder me aquietar para ouvir aquele poema escrito pelos gestos. Nem todos os abraços se transformam em sono e isso é tão verdadeiro quanto a constatação de que todos os genuínos oferecem repouso. Armam redes na alma da gente, onde as emoções se deitam e balançam aconchegadas. Não há lugar algum para onde ir enquanto acontecem. Apenas ficar ali, dentro deles, e dividir esse conforto.

Adormecida no abraço do pai, a menina o envolve com seus braços, dois pequenos laços de fita morenos. O abraço é também isso: um presente que duas vidas oferecem uma a outra e desembrulham juntas. Pago a conta e saio do restaurante. Tarde bonita, um bocado de sol ainda pousado na tranqüilidade da Lagoa. Sigo em direção ao meu destino com o coração enternecido, sintonizada com a suavidade das lembranças afetivas que aquela cena trouxe à tona. E grata, muito grata, por num tempo de tantas feiúras, ainda ser capaz de admirar a beleza preciosa de um abraço de amor.

5 comentários:

Adriana disse...

...saudades do meu pai.

bjs

bmaferraz@superig.com.br disse...

Eita, Ana!
"Aprender com o tempo" é não passar pela vida em brancas nuvens, como disse outro bom poeta. E isso é crescer.
Os "amores-balões" que embaraçam a lucidez dão-nos o que pensar...
A "prece", minha cara escritora, é a essência prima do licor da alma.
É bom ter você por perto! Seus textos, invariavelmente, são lições fundas e delicadas. Precisa-se disso. E você tem pra dar.
Um abraço e boa semana.
Berna

Anônimo disse...

DEPOIS DE LER O SEU "ABRAÇO" A ÚNICA COISA QUE POSSO DIZER É: SINTA-SE ABRAÇADA E ACONCHEGADA COM TERNURA PARA QUE NUNCA MAIS ESQUEÇAS ESSE ENCONTRO ENTRE PAI E FILHA....
SINTO UMA ENORME SAUDADE DOS ABRAÇOS DO MEU PAI...!!!

rita de cassia disse...

Que saudades do meu pai muita, ficara para sempre no meu coração

Ellenita disse...

Parabéns, Ana, realmente você possui o dom!!! Quisera poder sentir a vida e todas as essencialidades desta como você faz e ainda vai além ao descrevê-las para nós, almas medíocres, mas sedentas de iluminação. Felicitações sinceras por ser este espírito consciente e evoluído.